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Mostrando postagens de Setembro, 2011

Livre...

Podia sentir o vento tocando seu rosto. Deixava que ele entrasse em sua alma e levasse todos os fantasmas embora.
Cheiro de limpeza.
Olhava o horizonte e sentia a paz que nunca tivera.
O sol a pino não a incomodava mais.
Hoje queria apenas sentir tudo que se privara durante a vida inteira.
Queria a vida em totalidade, em dor e lágrimas...em riso e carne.
Promessas desfeitas, caminhos traçados em meio a pesadelos intermináveis.
Renovação!
Hoje o renascimento era sua nova meta, seu novo destino estava ao longe.
E iria...
Escolhera deixar a vida vazia e sair da inércia.
Nada e nem ninguém a faria mudar de idéia.
O vento a tocara com mais força e por um segundo, uma pequena fração de segundo, sentiu medo do abismo à sua frente.
Mas esse medo também se fora, como tudo em sua vida.
Abriu os braços...
E se deixou ir de encontro a liberdade que tanto almejara.
Estava livre...agora todas as amarras tinham sido cortadas.
Fechou os olhos e não mais se viu.

Convite...

O sol a pino.Suor descendo sorrateiro pelo pescoço. Mãos trêmulas...
Tentou em vão encontrar a sombra, mas tudo que via era fogo queimando o asfalto.
Fumaça turva que parecia brotar do chão de cimento. Quente...
Passou a lingua entre os lábios, podia sentir o trincar da pele ressecada. Gostoso umedecer.
Puxou a respiração e a imagem dele veio junto. Tremeu...
Olhou assustada em volta, queria ter a certeza de que ninguém a ouvira gemer baixinho ao imaginá-lo em sua mente.
O dorso nu, as mãos grandes e delicadas, a boca molhada e os cabelos rebeldes.
Ali parada no meio de pessoas que iam e vinham sem se olhar nos olhos, ela o chamou.
Entregava-se aquele momento e deixava que o calor tomasse seu corpo.
Por uma fração de segundos, pôde sentir as mãos dele passeando em seu corpo suado. Arrancando com sofreguidão a roupa que caía em brasas no asfalto quente.
As bocas que bebiam a saliva quente da secura do momento.
Gemeu novamente, sem se importar que alguém a estivesse ouvindo nesse mome…

Fim..

Os dedos frios a empunhavam. Segurança na ponta de cada um deles, mas incertezas dentro da alma.
Seria egoísmo querer a partida?
Covardia em aceitar que mesmo depois de tanto tempo, longos anos de solidão e medo, um novo tempo a esperaria?
Dúvidas...Medo.
Queria partir, sabia disso. Mas mesmo imersa em tanta dor, queria ter esperanças.
Queria que ele chegasse a tirasse dali, que a levasse embora consigo e que a amasse como a primeira vez.
Queria ver o brilho dos olhos dele nos seus, o aconchego de suas mãos em seu corpo.
Queria andar de mãos dadas na pracinha verde da cidade. Queria acordar nas madrugadas frias e vê-lo dormir sereno.
Mas tudo que via a sua volta agora, era dor e solidão.
Tantos anos ele a negligenciara, a abandonara sozinha em si mesma.
Os dias haviam perdido a cor, o sentido.
Vivia-os por viver, sentia-os por sentir. A alma, esta estava vazia há muito tempo.
Impar, única.
Sem par, sem paradeiro.
Os dedos podiam sentir o gelado do ferro. Permitia traçar os caminhos…

Despertar...

A noite chegara como corte de navalha. A dor lancinante cortava a carne enquanto a escuridão tomava tudo à sua volta.
Não poderia ver, mesmo que os olhos estivessem abertos.
Só sentia. As mãos vagueavam o escuro. Procurava algo que nem mesmo sabia existir.
Silêncio. Coração descompassado. Passos...
Olhou à sua volta, nada via, nada sentia, apenas ouvia.
Mas como de certo já fizera antes, não poderia confiar assim em seus ouvidos já caleijados.
Tinha sido deixada para trás, mas a solidão que sentia naquele momento, não era menor do que a que sentira toda sua vida.
Sempre estivera acompanhada dela e nem sabia ao certo, se conseguiria viver sem tal companhia.
Afinal, porque estava ali? Como fôra parar ali?
Resquicios de anos de provações. Provações essas, que foram vencidas em longas batalhas.
A carne dolorida era a prova que ela ainda vivia.
A navalha...o pingar do sangue pelo chão.
Sozinha, como sempre fôra.
Tudo chegava ao fim.
Despertara...

O que não se pode explicar...

Sobre o amor e o desamor, sobre a paixão
Sobre ficar, sobre desejar, como saber te amar?
Sobre querer, sobre entender, sem esquecer
Sobre a verdade e a ilusão
Quem afinal é você?
Quem de nós vai mostrar realmente o que quer?
Um coração nesse furacão, ilhado onde estiver.
O meu querer é complicado demais,
Quero o que não se pode explicar aos normais.
Sobre o porquê de tantos porquês,
E responder
Entre a razão e a emoção eu escolhi você!

Quem de nós vai mostrar realmente o que quer?
Um coração nesse furacão, ilhado onde estiver.
O meu querer é complicado demais,
Quero o que não se pode explicar aos normais.
Sobre o porquê de tantos porquês,
E responder
Entre a razão e a emoção eu escolhi você!

E....acordou!

Cinza...abrira os olhos e o que via era cinza..Os fechou rapidamente. O medo a invadiu.
Os abriu devagar, olhou em volta...e viu...
Ali, espalhada por todo o canto,linda, leve, transparente...
Densa,avassaladora..
Paz!!
Deixou que ela invadisse o seu ser, entrasse onde não existia mais vida. A respirou com sofreguidão.
Sorveu cada gota de paz. Podia se levantar agora e ir de encontro ao que a esperava.
Pés descalços no chão frio. Roupas pelo chão. Musica suave vindo da cozinha...
Caminhou...
Tateou as paredes com a ponta dos dedos gélidos, sentiu a massa áspera, mas nem isso a fez desistir de passear por entre os sulcos.
A música...
Na cozinha, a velha janela de madeira estava aberta. O sol banhava a mesa e as frutas frescas.
O bule de café sobre o fogão de lenha. Não ouvia nada a não o bem-te-vi matreiro que cantava lá fora.
Debruçou-se na janela, as mãos tocaram as flores molhadas ainda de sereno.
Avistou o horizonte...Toda sua vida estava ali, sempre estivera ali.
Certezas...
Fech…

Aromas...

O cheiro de café fresquinho inundava a casa toda. Permitia-se viajar nele, tal qual já vira no desenho na tv.
Cheiro de cêra vermelha que a mãe acabara de passar no chão da cozinha.
Aroma de vida pelo ar.
Porquê de certa forma,os cheiros não a atraíam?
Mesmo os sentindo, não lhe via entrar na pele, no seu eu.
O cheiro da pele dele, o aroma acri-doce que exalava de sua respiração. Isto estava nela. O sentia só em fechar os olhos, só em imaginá-lo.
Desenhos fluindo na mente, imagens desconexas e aromáticas.
Sentia...cheirava...mas mesmo assim, não sentia, não cheirava.
Aromas vazios, como vazia era sua alma...

Tarde...

Tinha a sensação de dormência nas mãos. A boca seca colava-se em desespero. Não conseguia ouvir o coração, talvez pq a música estivesse alta, talvez...
Depois da curva era o que tocava...mas deixara de prestar atenção na canção havia alguns minutos.
Centrava-se na tela, fria, inquieta, dançante...
O céu azul lá fora, o sol que queimava seus ombros.
Esperava...e como esperava.
Já não se lembrava mais do que esperava. Só sabia que precisava estar ali quando chegasse.
Da mesma forma que quando ele chegou, ela sabia por quem havia esperado a vida toda.
Por quanto mais iria durar a agonia?
Não podia prever...Mas tinha certezas. E eram essas certezas que a mantinham na doce e fria espera.
Ele viria...ela sabia que sim!